INÍCIO /// OPINIÃO
 
 
 
 
 
No raide, deves ser o “lobo que não dorme” – como B-P!
Artigo publicado a 2017-01-04 /// 3716 visualizações
 
O raide de inverno
No raide de inverno podes colocar à prova todas as tuas capacidades de enfrentar a natureza confrontando as condições climatéricas que surjam, sejam elas quais forem.
Raid, como é vulgarmente conhecido, é um termo de origem inglesa para “assalto” ou “ incursão rápida”. Um e outro termo traduzem meio para obter um fim! No caso, conquistar pela luta uma posição em campo inimigo que assegure o domínio de um espaço, situação estratégica ou território.

Ficaram bem conhecidos os ”raides” noturnos com que B-P e os seus oficiais surpreendiam os adversários – sobretudo em África –, aproveitando a preguiça e o comodismo dos seus oponentes, fazendo descansar os seus homens de dia, desenvolvendo as ofensivas sobre o inimigo à noite.

Os Matabele atribuíram a B-P uma alcunha, que vale a pena relembrar e perceber a sua aplicação prática na grande escola que é o Escutismo. Não será o “lobo que não dorme” o autêntico guia de Patrulha atento a cada um dos seus elementos? O animador que sabe pôr a vibrar a sua unidade, preparando da melhor forma o próximo momento de atividade? O chefe de agrupamento qual águia em voo altaneiro e planado, a observar qualquer necessidade premente no agrupamento? Algo que nos destaca, em especial dos nossos pares não escuteiros, é exatamente isto: deter o dom de observação, saber estar atento… Primeiro ao outro e a outrem, antes de nós próprios! E com isto “surpreendemos” quem nos queira conhecer.

Entre nós, nos tempos que correm, o “raide” não é mais do que um percurso, caminho até, que nos propomos cumprir e ao longo do qual pomos em prática conhecimentos e técnicas que aprendemos ou concebemos. Ao longo desse percurso, poderão existir “lutas” a travar, obstáculos a superar, dificuldades para as quais há que estar preparado e saber dar resposta, com o fim de alcançar o objetivo final preconizado. Participar num raide é fazer um apelo a todos os nossos recursos para viver o máximo, neste caso, nas condições que o inverno torna hostis.

No raide de inverno podes colocar à prova todas as tuas capacidades de enfrentar a natureza confrontando as condições climatéricas que surjam, sejam elas quais forem, com as comodidades da tua casa: as janelas de vidros duplos, o aquecimento central, o chá ou o café quentinho no sofá, a lareira e as pantufas, a televisão, a água quente, etc.

No raide – esse “caminho por qualquer tipo de terreno” –, tens a possibilidade de colher da natureza ensinamentos e sobretudo buscar a calma e o sossego para um bom encontro… contigo próprio. Verás certamente em ti algumas capacidades que vias desconhecidas, por algum esforço e sacrifício físico a que estejas menos habituado, mas também reconhecê-lo noutros, a quem certamente não consideravas possível.

Os raides têm por vezes momentos que nos marcam! Se o raide for realizado em Patrulha ou em Equipa, o espirito de união e interajuda ganha palco privilegiado. Pode acontecer que por entre a sobriedade dos momentos fora da rotina do dia a dia, aquela que não nos deixa ver para dentro de nós, vás repensar aquele comportamento menos adequado a que te tens permitido junto dos teus pais, irmãos, amigos; a lealdade junto dos teus companheiros e do teu chefe dos escuteiros; pode ser aí, na simplicidade dos teus passos, que reconheças o esforço que os teus pais fazem para que tenhas o que certamente nunca conseguiram para eles; pode ser aí que concluas como às vezes pedes e exiges demais a quem te dá com redobrado esforço, o que gastas no menos necessário e… até pode ser por entre essas pedras que se desfazem e rolam à tua passagem, gravetos que estalam sob as botas e paisagens que vale a pena olhar sempre duas vezes, consigas avaliar e decidir momentos importantes da tua vida. Sejam opções escolares com vista a limar arestas da tua carreira ou, quem sabe, ganhar a coragem que te tem faltado para aceitar ou realizar aquele pedido de namoro, junto daquela “alma gémea”, a quem o pretendes fazer há já muito tempo.

Quando queremos um raide, metamos pé ao caminho e façamo-lo com tudo o que representa de desafio e motivo de superação q.b. Não chamemos “raide” ao vulgar “passeio higiénico” de oportunidade, fortuito, pois dessa forma, estaremos a banalizar um meio que deverá ser usado para metas mais tangíveis. Nesta apologia, o raide e a alcunha “impisa” surgem transpostos para a aprendizagem escutista por se encontrarem diretamente ligados: “Se eu preparar bem, se for rápido, se souber surpreender, então poderei ser melhor sucedido e mais assertivo.”

Vejamos quais os raides que empreenderemos com mais regularidade? O desafio da “subida à montanha do Pico” ou o olhar atento do guia que acha que o noviço não se está a adaptar bem e precisa da sua intervenção direta? A expedição da “Travessia do Marão” ou a atividade surpresa com que uma equipa de animação surpreende a sua unidade que atravessa um momento invulgar de “motivação precisa-se”? A descida do rio Cabril pelo leito com banho em cada lagoa natural ou o empreendimento que um chefe de agrupamento prepara, tentando captar aquele pai, a quem se reconhece “dar-se sem medida…” e convidá-lo a participar num EIe integrá-lo numa EA? Tudo são ideias de raides. Todas boas, todas necessárias. No sucesso de cada uma, impõe-se a “preparação que não dorme”!

No raide, deves ser o “lobo que não dorme” – como B-P! Está atento aos sinais e às suas palavras em A Caminho do Triunfo: «[…] para aqueles que têm olhos para ver e ouvidos para escutar, a floresta é ao mesmo tempo um laboratório, um clube e um templo[…]».

Está Alerta e bons Raides!

Texto de: Falcão Ágil. Fotografia de: Cláudio Noy.
 
Bookmark and Share