INÍCIO /// OPINIÃO
 
 
 
 
 
"A educação para a cidadania apregoada pelo Escutismo é muito mais que a ajuda do idoso atravessar a rua."
Artigo publicado a 2010-08-03 /// 4341 visualizações
 
Os Escuteiros tomaram o poder!
No Cabeleireiro, na sexta-feira à tarde, não se falava de outra coisa: a Junta de Freguesia fazia anos e havia uma sessão solene na Faculdade de Motricidade Humana.
Isto parece uma "não notícia". Há centenas de juntas de freguesia que fazem sessões comemorativas nos respectivos aniversários.

O que torna este acontecimento digno de registo no bairro da D. Conceição é o facto de os recém-eleitos autarcas (com uma média estaria inferior a 35 anos e nascidos e crescidos naquelas ruas e matas) terem ganho as eleições contra o respeitado e amado Comandante dos Bombeiros. A freguesia da D. Conceição é a única do concelho de Oeiras que não é "tutelada" por Isaltino Morais. Quando, depois de contados os votos, se constatou que os jovens tinham ganho por uma diferença de treze boletins, muitos disseram e outros pensaram: "Isto dá muito trabalho. Ao fim do primeiro mês já desistiram todos."

Passaram seis meses, eles não dão sinais de cansaço, muito menos de tédio, e a qualidade de vida dos mais frágeis dos nossos fregueses melhorou. Tendo algumas escolas do 1º ciclo (as menos frequentadas) fechado, viveu-se um drama no bairro: os pais começaram a ter de levar e buscar os filhos à nova escola a horas em que tinham de estar no trabalho.

Então, o presidente de junta, docente numa universidade – trabalho que interrompeu para responder a tempo inteiro à gestão da coisa pública -, sem dinheiro para contratar um motorista para transportar as crianças, arregaçou as mangas e pôs-se a tirar, ele próprio, um curso nocturno de condutor!

E depois negociou com a SIMECQ, colectividade centenária cá do burgo, a utilização aos dias de semana da carrinha que no fim-de-semana transporta os atletas. E lá vai ele, quatro vezes por dia, transportar a garotada (que vai para a escola como quem vai para uma excursão). A escola velha, enquanto a Câmara não fizer dela um centro intergeracional, como decidiu a Assembleia de Freguesia, foi limpa e embelezada pelas mães dos autarcas.

É lá que se partilham víveres e roupas com as famílias com menos recursos, sinalizadas pelo serviço social e recebidas como gente com direitos, sendo o primeiro dos quais o acolhimento afectuoso da mãe do Jorginho. Lista dos jovens integrava três ou quatro senhoras crescidas. Uma delas, militante esperançosa destas novidades da democracia, começou cedo a fazer campanha. Quando ia já em velocidade de cruzeiro, um cancro passou-lhe uma rasteira. Esteve mal. Não sei se aquele mal que fazia mirrar era da doença ou da tristeza. Não ia poder integrar a lista dos novos.

Ela também estava nessa sexta feira no cabeleireiro. Uns quilitos a mais, cabelo bem arranjado, nem parecia que o "bicho" tinha passado por ela: Uma força da natureza. Mais tarde, foi emocionante vê-la subir ao grande estrado do salão nobre e ser ovacionada de pé. "Como não havia dinheiro para contratar um motorista, o Presidente da Junta arregaçou as mangas e tirou um curso de transporte de crianças."

Afinal os "miúdos" são gente de garra. Percorrem a freguesia toda de bicicleta, conhecem todos os fregueses e todos os conhecem a eles, convocam reuniões por sms e conversam com os mais velhos, nas mesas onde jogam às cartas debaixo das oliveiras.

A sessão solene desta Junta de Freguesia não foi como as outra centenas que tiveram lugar pelo país. Começou ao fim do dia, na escadaria da faculdade, com a banda da SIMECQ a tocar, de costas para a mata do Estádio nacional, até que o Sol se pôs definitivamente. O grupo de serenatas da Faculdade, já no final, animou o porto de honra, enquanto todos iam tendo dificuldade em partir. Por acaso, os autarcas da lista mais votada da D. Conceição foram todos escuteiros na juventude. Qualquer dia ainda nos põem a fazer um grande fogo de campo à beira-rio.

in "Jornal SOL" de 25-06-2010

Texto: Catalina Pestana /// Ilustração: Pedro Alves
 
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